Congelar óvulos antes da quimioterapia atrasa o tratamento do câncer?

Por Dra. Jaqueline
08/10/2026

Receber um diagnóstico de câncer costuma reorganizar prioridades de forma imediata. Exames, consultas e definição do tratamento passam a ocupar o centro das decisões. Nesse contexto, falar sobre fertilidade pode parecer secundário, especialmente quando surge a possibilidade de realizar um procedimento antes do início da quimioterapia.

É daí que nasce uma dúvida importante: congelar óvulos antes da quimioterapia pode atrasar o tratamento do câncer?

Nem sempre. E, em muitos casos, a preservação da fertilidade pode ser realizada sem um atraso significativo no início do tratamento oncológico. As diretrizes atuais recomendam que os riscos reprodutivos e as possibilidades de preservação sejam discutidos antes do início da terapia sempre que possível.

Isso não significa postergar um tratamento oncológico necessário para preservar óvulos. Significa incluir a fertilidade no planejamento de seu tratamento desde o começo, para entender se existe uma janela segura e clinicamente adequada para realizar a preservação da fertilidade sem comprometer o cuidado oncológico.

Existe um ponto fundamental: o tratamento do câncer é prioridade.

Por que a fertilidade deve ser discutida antes da quimioterapia?

Alguns tratamentos contra o câncer podem afetar os ovários, os folículos e, consequentemente, o potencial reprodutivo futuro. O risco, porém, não é uniforme: depende de fatores como idade, reserva ovariana, tipo e dose dos medicamentos utilizados, duração do tratamento e outras terapias associadas.

A American Society for Reproductive Medicine (ASRM) destaca que terapias sistêmicas, radioterapia e determinadas cirurgias podem comprometer a fertilidade e recomenda aconselhamento rápido sobre as alternativas de preservação para pacientes que serão submetidas a tratamentos com esse potencial.

Por isso, a pergunta sobre ter filhos no futuro não precisa esperar o término do tratamento. Quando existe desejo reprodutivo, ou mesmo quando a paciente ainda não sabe se desejará engravidar, a avaliação precoce permite compreender o risco e as possibilidades existentes antes que algumas delas deixem de estar disponíveis.

Esse cuidado integra uma área conhecida como oncofertilidade, que aproxima oncologia e medicina reprodutiva justamente para que decisões relacionadas à fertilidade possam ser incorporadas ao planejamento terapêutico.

Então, congelar óvulos antes da quimioterapia atrasa o tratamento?

Um dos avanços importantes da reprodução assistida foi o desenvolvimento de protocolos de estimulação ovariana que não precisam necessariamente aguardar uma fase específica do ciclo menstrual. Isso pode permitir que o processo seja iniciado mais rapidamente quando há indicação médica.

Existem protocolos de estimulação ovariana que permitem iniciar o processo em diferentes momentos do ciclo menstrual, sem precisar esperar pela próxima menstruação. Isso tornou a preservação da fertilidade mais rápida e compatível com a urgência de muitos tratamentos oncológicos.

A ASRM informa que procedimentos de preservação envolvendo o congelamento de gametas ou tecidos frequentemente podem ser realizados antes do início de terapias gonadotóxicas. A entidade ressalta, porém, que a avaliação deve considerar tanto os riscos reprodutivos quanto os possíveis riscos de qualquer adiamento do tratamento da doença.

Assim, não existe uma quantidade universal de dias que possa ser considerada segura para todas as pacientes.

Uma mulher com determinado diagnóstico, estágio da doença e planejamento terapêutico pode ter uma janela suficiente para estimulação ovariana e coleta dos óvulos. Outra pode precisar iniciar o tratamento oncológico imediatamente.

A prioridade continua sendo o tratamento do câncer. A preservação da fertilidade deve ser organizada dentro dos limites considerados seguros pela equipe oncológica, e não o contrário.

Como funciona o congelamento de óvulos antes do tratamento?

O processo de estimulação ovariana e coleta dos óvulos geralmente exige cerca de duas semanas, embora o tempo possa variar de acordo com cada caso.

Quando a criopreservação de óvulos é considerada apropriada, o processo geralmente envolve avaliação da paciente, estimulação ovariana, acompanhamento do desenvolvimento dos folículos, coleta dos óvulos e vitrificação.

A criopreservação de oócitos maduros é considerada uma técnica estabelecida de preservação da fertilidade. As diretrizes atualizadas da American Society of Clinical Oncology (ASCO) recomendam que ela seja oferecida às pacientes elegíveis que passarão por tratamentos potencialmente prejudiciais à fertilidade.

Na prática, algumas etapas precisam ser avaliadas com especial atenção no contexto oncológico:

EtapaO que precisa ser considerado
Avaliação inicialDiagnóstico, idade, reserva ovariana, condição clínica e planejamento oncológico
Discussão multidisciplinarJanela disponível antes do tratamento e segurança da preservação
Estimulação ovarianaProtocolo definido de acordo com o caso e o tempo disponível
MonitoramentoAcompanhamento da resposta dos ovários
Coleta dos óvulosProcedimento realizado quando os folículos atingem o estágio adequado
VitrificaçãoÓvulos maduros são congelados para eventual utilização futura

O número de óvulos obtidos também varia. Idade, reserva ovariana e resposta à estimulação influenciam o resultado, razão pela qual uma avaliação individual é mais útil do que estabelecer previamente uma expectativa baseada apenas na idade.

O tipo de câncer interfere na decisão?

Sim. O diagnóstico oncológico faz parte da decisão sobre como e se a preservação da fertilidade pode ser realizada antes do tratamento.

Não basta saber que haverá quimioterapia. É necessário compreender qual doença está sendo tratada, qual protocolo foi indicado, quando ele precisa começar e quais particularidades clínicas precisam ser consideradas.

Alguns tumores também exigem cuidados específicos em relação à estimulação ovariana. Nos cânceres sensíveis a hormônios, por exemplo, podem ser considerados protocolos adaptados. A ASRM observa que os dados disponíveis sobre a segurança de longo prazo da estimulação ovariana no contexto do câncer, inclusive em câncer de mama com receptor de estrogênio positivo, são tranquilizadores, mas a indicação continua dependendo da avaliação individual.

Há ainda situações em que a própria condição clínica aumenta a complexidade do procedimento, exigindo integração entre especialistas em reprodução humana, oncologistas, anestesistas e outros profissionais.

Por isso, duas mulheres da mesma idade submetidas a tratamentos contra o câncer podem receber orientações diferentes sobre preservação da fertilidade.

E quando não há tempo suficiente para congelar óvulos?

A ausência de uma janela adequada para estimulação e coleta de óvulos não significa necessariamente que todas as possibilidades de preservação da fertilidade estejam descartadas.

Existem outras estratégias que podem ser consideradas em situações específicas. Entre os métodos reconhecidos estão o congelamento de embriões, a criopreservação de tecido ovariano e, em determinados contextos, procedimentos como transposição ovariana. A escolha depende da idade, diagnóstico, tratamento previsto, condição clínica e características individuais da paciente.

Em algumas situações, agonistas do hormônio liberador de gonadotrofinas (GnRH) também podem ser utilizados durante a quimioterapia. No entanto, as diretrizes da ASCO deixam claro que essa estratégia não deve substituir métodos estabelecidos de preservação da fertilidade, como congelamento de óvulos ou embriões, quando eles forem viáveis.

A criopreservação de tecido ovariano, por sua vez, é atualmente considerada uma alternativa estabelecida em situações selecionadas e assume especial importância quando a estimulação ovariana não é possível ou adequada.

Isso reforça por que a avaliação especializada deve acontecer cedo: o objetivo não é simplesmente decidir se haverá congelamento de óvulos, mas identificar qual estratégia é possível e apropriada para aquela paciente.

Preservar a fertilidade não significa adiar a quimioterapia por conta própria

Talvez este seja o ponto mais importante da discussão.

Ao receber a informação de que determinados tratamentos podem afetar a fertilidade, é compreensível que surja urgência em tentar preservar óvulos antes da quimioterapia. Mas nenhuma decisão de adiar o início do tratamento oncológico deve ser tomada exclusivamente com base no objetivo reprodutivo.

A lógica é outra: oncologista e especialista em reprodução humana avaliam se há uma janela disponível e como utilizá-la da maneira mais eficiente e segura.

A ASCO recomenda que pessoas com câncer sejam orientadas sobre os riscos reprodutivos desde o diagnóstico e que aquelas interessadas ou ainda incertas sobre preservação da fertilidade sejam encaminhadas a especialistas. A recomendação também é que as possibilidades sejam discutidas antes da terapia contra o câncer, justamente porque o tempo faz parte da decisão.

Quanto mais cedo essa conversa acontece, maior é a possibilidade de avaliar alternativas sem criar uma disputa artificial entre tratamento oncológico e planejamento reprodutivo.

O que avaliar antes de decidir?

Diante de um diagnóstico recente, algumas informações ajudam a orientar a conversa entre oncologia e reprodução humana:

  • qual tratamento será realizado e quando precisa começar;
  • qual é o potencial desse tratamento de afetar a fertilidade;
  • idade e reserva ovariana da paciente;
  • existência de uma janela clínica para preservação;
  • possibilidade e segurança da estimulação ovariana;
  • alternativas disponíveis caso o congelamento de óvulos não seja indicado;
  • desejos e prioridades reprodutivas da própria paciente.

A preservação da fertilidade não oferece garantia de gravidez futura. O congelamento permite preservar óvulos no estado biológico em que foram coletados para uma eventual tentativa posterior de reprodução assistida, mas o resultado futuro dependerá de diferentes fatores.

Ter clareza sobre essas limitações também faz parte de uma decisão informada.

Perguntas frequentes

Quanto tempo antes da quimioterapia é preciso congelar os óvulos?

Não existe um intervalo único aplicável a todas as pacientes. O tempo necessário depende do protocolo utilizado, da resposta ovariana e das condições clínicas. A possibilidade deve ser discutida rapidamente entre oncologista e especialista em reprodução humana.

Toda quimioterapia causa infertilidade?

Não. O risco varia conforme os medicamentos utilizados, doses, duração do tratamento, idade, reserva ovariana e outros fatores. A avaliação deve considerar o esquema terapêutico específico.

É possível congelar óvulos depois da quimioterapia?

Em algumas situações, a preservação da fertilidade pode ser considerada após o tratamento, mas as possibilidades podem ser diferentes. A ASCO passou a recomendar que a saúde reprodutiva também seja abordada durante a fase de sobrevivência ao câncer.

Congelar óvulos garante uma gravidez no futuro?

Não. A criopreservação preserva uma possibilidade reprodutiva, não uma garantia de gestação. Idade no momento da coleta, quantidade e qualidade dos óvulos e condições futuras de saúde são alguns dos fatores envolvidos.

Preciso decidir sobre congelamento de óvulos antes de saber todo o tratamento?

A decisão precisa estar integrada ao planejamento oncológico. Por isso, quando há preocupação com fertilidade, o encaminhamento precoce à reprodução humana permite avaliar possibilidades enquanto a equipe de oncologia define ou organiza o tratamento.

O tempo importa, mas a decisão precisa ser individualizada

Quando câncer e fertilidade aparecem na mesma conversa, rapidez não deve significar precipitação. Significa colocar as equipes certas em contato o quanto antes.

O congelamento de óvulos antes da quimioterapia pode ser uma alternativa para preservar possibilidades reprodutivas futuras e, em muitos casos, pode ser organizado dentro da janela existente antes do tratamento. Em outros, a urgência ou as características da doença podem limitar ou contraindicar essa estratégia.

Na InVentre, a avaliação em oncofertilidade parte justamente dessas particularidades: compreender o diagnóstico, a história reprodutiva, a reserva ovariana e, sobretudo, o planejamento definido pela oncologia para avaliar quais possibilidades são adequadas naquele momento.

Se você recebeu um diagnóstico de câncer e deseja entender as possibilidades de preservação da fertilidade, converse com a equipe da InVentre. A avaliação especializada pode ajudar a identificar quais alternativas podem ser consideradas sem postergar indevidamente o tratamento oncológico.

Encontrar no Blog

Postagens populares

Fertilidade masculina: o fator que ainda chega tarde demais à investigação

outubro 27, 2026

Câncer de mama e fertilidade: o que precisa ser discutido antes do tratamento oncológico

outubro 1, 2026

O que pode interferir na implantação de um embrião?

setembro 21, 2026

Janela reprodutiva: por que esperar pode mudar completamente o tratamento indicado?

setembro 18, 2026

Categorias